
Porque parei de ler livros técnicos (por hora)
Recentemente comecei a ler mais, me sinto um pouco culpado de não ter lido tanto no passado e agora quero tentar resolver isso. Minhas leituras tem sido focadas, até então, em mitologia grega, filosofia e história antiga.
Percebi que a culpa só migrou de lugar, agora ela é: você deveria estar lendo mais livros da sua área, mais livros técnicos. O “Codificador Limpo” do Uncle Bob está ali te esperando, juntamente com um PDF de 5 mil páginas sobre como trabalhar com Open Office XML. Por que eu estou gastando meu tempo lendo sobre Oreste de Ésquilo e me entretendo com os plots da peça? Por que tô vendo um livro contando sobre a Guerra do Peloponeso e a participação do autor de Oreste nela e na democracia ateniense?
Bom, eu gosto. Isso tem que ser suficiente para não ficar sentindo culpa, certo? Bom… não. Mas foi suficiente para ganhar um tempo, tempo para entender que ler esses clássicos podem me mudar, me melhorar, de forma mais profunda que qualquer livro técnico poderia. Explico.
Imagina que você é uma árvore. Você pode podar os galhos, cuidar das folhas, tratar a casca. Essas mudanças são visíveis, práticas, até necessárias. Mas as raízes, a estrutura que sustenta tudo, essa você não vê. Ela fica lá embaixo, quieta, absorvendo nutrientes, segurando firme quando o vento vem. E ela pode crescer bem mais do que a copa jamais crescerá. Esse crescimento não é perceptível a primeiro momento, nem a segundo. É um processo lento e contínuo, que acontece no silêncio, sem alarde, sem métricas visíveis.
Livros técnicos cuidam disso, te ensinam a podar melhor, a identificar pragas, a se fortalecer. São úteis, práticos, resolvem problemas reais. Mas os clássicos, a filosofia, a mitologia, a história antiga? Esses alimentam as raízes, não te ensinando a fazer, mas a ser.
E ser é mais difícil de medir. Ser não aparece no LinkedIn. Ser não vira pull request. Ser é lento, é interno, é uma mudança que você só percebe meses depois, quando reage diferente a algo que antes te destruiria. Quando escolhe uma palavra com mais cuidado. Quando entende que aquela discussão técnica tem menos a ver com código e mais a ver com ego, orgulho, medo, exatamente como nas tragédias gregas.
Então sim, O Codificador Limpo está ali. E ele vai continuar ali. Mas ler sobre a história de Atenas e como as obras de Ésquilo e Platão ajudaram a construir a democracia, está me ensinando sobre escolha, sobre consequência, sobre como as pessoas tomam decisões terríveis por razões que fazem todo sentido pra elas naquele momento. E isso me torna um desenvolvedor melhor? Talvez não diretamente. Mas me torna uma pessoa melhor. E pessoas melhores escrevem código melhor, lideram melhor, colaboram melhor.
A culpa pode ficar onde está. Eu vou continuar lendo clássicos, filosófos e eventualmente ler uns livros políticos que estão ali se acumulando na minha cabeceira da cama.
A democracia ateniense nasceu de tentativa e erro, de assembleias barulhentas, de votos feitos com pedras, de gente comum decidindo sobre guerra, paz, justiça. Platão via isso como fracasso. Para ele, fracassou porque as pessoas votavam por medo, por orgulho, por vingança. Porque a democracia não resolve o problema de sermos humanos.
Platão viu isso. Ele viu Atenas condenar Sócrates à morte por voto popular. E escreveu A República não como manual político, mas como pergunta incômoda: o que é justo? Quem deve governar? Como você constrói uma cidade, uma vida, uma alma que não desmorone quando a pressão vem?
A República não me ensina a escrever código melhor. Mas me ensina a pensar sobre estrutura. Sobre o que sustenta uma decisão. Sobre por que algumas coisas parecem certas no momento e destroem tudo depois. Sobre por que é mais fácil seguir o que todo mundo faz do que parar e perguntar: isso faz sentido?
Não só isso, como me mostra mais de Sócrates e o método socrático. O método socrático não é sobre dar respostas, é sobre fazer perguntas. Sócrates não te diz o que pensar. Ele te força a pensar. Ele pega suas certezas e vai questionando, questionando, questionando até você perceber que talvez você não saiba tanto quanto achava que sabia. É desconfortável. É irritante. E funciona.
No desenvolvimento, fazemos isso o tempo todo sem perceber. Code review não deveria ser "está errado, muda". Deveria ser "por que você escolheu fazer assim? O que você estava tentando resolver? Existe outra forma?". O código não é o resultado somente da capacidade do intelecto do indivíduo que o produziu, mas também do seu contexto profissional e pessoal, da pressão, da equipe. O método socrático aplicado ao código. E ao ego. E às decisões de arquitetura que a gente defende com unhas e dentes sem saber bem por quê.
Platão não me dá respostas. Ele me dá perguntas melhores. E perguntas melhores mudam como você olha pra tudo: pra código, pra equipe, pra decisão técnica, pra vida. Então sim, vou continuar lendo. A culpa pode ficar onde está.
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